O Brasil encerrou 2025 com um número que ninguém queria ver: 5.680 empresas em recuperação judicial, alta de 24,3% em relação a 2024 e o maior volume já registrado na história do monitoramento do setor.
São empresas de todos os tamanhos, de todos os setores, com uma coisa em comum: a dívida ficou maior do que o caixa consegue pagar.
Mas esse número não surgiu do nada. Ele tem uma origem clara, e entender essa origem é o que separa quem ainda tem tempo de agir de quem vai engrossar a lista em 2026.
A armadilha começou quando os juros estavam baixos
Durante a pandemia, entre 2020 e 2021, a taxa Selic caiu para 2% ao ano, o menor patamar da história. O governo abriu linhas de crédito emergenciais como o Pronampe, os bancos afrouxaram critérios e o dinheiro ficou barato. Para muitas empresas, foi uma tábua de salvação. Pegaram crédito para pagar fornecedor, manter folha, cobrir queda de receita.
Parecia a decisão certa na hora.
O problema é que esse crédito foi contratado, em grande parte, a taxas pós-fixadas ou com vencimentos de médio prazo. E quando a Selic começou a subir, saindo de 2% para 13,75% em 2022 e chegando a 15% em 2025, as parcelas foram junto.
Pagar dívida virou o negócio principal de muitas empresas
Esse é o efeito mais silencioso e mais destrutivo dos juros altos sobre o caixa empresarial: o capital que deveria financiar produção, estoque, expansão e inovação passa a ser consumido pelo serviço da dívida.
Segundo dados da Serasa Experian, em janeiro de 2026 havia 8,7 milhões de CNPJs negativados no Brasil, com dívida média de R$ 23 mil e cerca de sete restrições por empresa. Não são empresas que pararam de funcionar. São empresas que continuam operando, mas com o caixa cronicamente comprometido.

Em vez de investir em produção ou inovação, condições básicas para crescer e gerar empregos, uma quantidade considerável de empresas brasileiras passou a operar no modo sobrevivência: decidindo todo mês o que paga, o que adia e o que negocia.
A recuperação judicial, nesse contexto, não é o começo da crise. É o fim de um processo longo de erosão que começa muito antes, quando o custo da dívida supera a capacidade de geração de caixa do negócio.
Os setores mais afetados, e o que eles têm em comum
O agronegócio liderou os pedidos de recuperação judicial em 2025, com 1.990 casos e alta de 56,4% em relação a 2024. O dado surpreende à primeira vista: o setor registrou supersafras e crescimento de 11,7% do PIB agropecuário no período.
A contradição é só aparente. O agro opera com insumos dolarizados, ciclos financeiros longos e exposição cambial. Com Selic a 15%, refinanciar dívidas de safra virou missão quase impossível para produtores que haviam se alavancado nos anos anteriores.
Serviços e comércio vieram logo atrás, com 739 e 535 pedidos respectivamente. Em todos os casos, o fio condutor é o mesmo: dívidas contraídas em juro baixo, roladas em juro alto, consumindo caixa até o ponto de ruptura.

O que os dados dizem sobre 2026
A Selic iniciou um ciclo de corte, mas os especialistas são cautelosos: mesmo com a queda projetada para algo entre 12,5% e 13%, o alívio não será imediato. O efeito dos juros sobre o endividamento corporativo tem defasagem, o que significa que empresas que hoje ainda estão operando com dívida cara podem chegar ao limite nos próximos trimestres.
O termômetro já está subindo. Inadimplência é o prelúdio das recuperações judiciais, e os 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro de 2026 são um sinal claro de que o ciclo ainda não terminou.
Para o empresário que tem patrimônio e dívida bancária cara, essa janela entre agora e a normalização dos juros é crítica. Não porque a situação vai piorar para sempre, mas porque quanto mais tempo a dívida cara consome caixa, menor fica a margem para reagir.
A diferença entre quem atravessa e quem não atravessa
Nos dados de 2025, há um detalhe que passa despercebido na maioria das análises: as empresas que entraram em recuperação judicial não eram, em sua maioria, mal geridas. Eram empresas que tomaram decisões financeiras razoáveis num contexto de juro baixo e pagaram o preço quando o cenário mudou.
O que separa quem atravessa de quem não atravessa, em boa parte dos casos, não é o tamanho do negócio nem o setor. É a estrutura da dívida.
Empresas que conseguiram trocar dívida pós-fixada por obrigações com custo fixo e previsível antes da alta dos juros sentiram menos pressão. Quem ficou exposto às taxas variáveis do mercado bancário foi arrastado pela correnteza.
Essa não é uma conclusão acadêmica. É o que os números de 2025 mostram para quem quer ver.
A estrutura da dívida é o que separa quem atravessa de quem não atravessa. E mudar essa estrutura ainda é possível para quem tem patrimônio e age antes de chegar ao limite. A RA faz essa simulação com você.




